quinta-feira, 19 de julho de 2007

Margarida W.

Acordei com a estranha sensação de ter um chiclete grudado na testa. E realmente havia.
Enquanto tentava lembrar como ele havia parado ali (e também pensava em um modo de removê-lo), notei um pedaço de papel em cima do criado mudo.
Tom era um criado dedicado. E já que não falava, a discrição personificada. Perdeu a fala em um estranho acidente mal explicado envolvendo uma cabra, uma lixa de unhas e azulejo moído. Mas não estou aqui para falar de Tom.
Era um bilhete de Austregésilo. Queria falar comigo sobre assunto confidencial, com urgência! Daria uma festa logo mais a noite e minha presença era importante. Tudo bem que ele sempre foi um velho de hábitos peculiares, mas tratar de assuntos importantes (e principalmente confidenciais!) em festas... ora!
Mas não foi isso que me deixou inquieta. Ele havia jurado que não queria me ver nem vestida de chacrete, e agora me convida para uma festa.
Nossos problemas pessoais começaram quando Austregésilo me contratou para ser barriga de aluguel, seis anos atrás. Naquele momento ele se dizia apaixonado por seu podólogo. Só que na verdade o que queria mesmo (já que sofria constantemente com problemas nos pés) era o podólogo ao seu lado 24 horas por dia, sem custos adicionais. Mão de vaca.
Por outro lado, o podólogo não sabia das intenções de Austregésilo em relação a ele. E o que nenhum dos dois sabia é que eu não posso ter filhos. Uma história um pouco confusa que tinha como base o seguinte plano de Austregésilo:
Eu saíria algumas vezes com Igor, o podólogo. Numa dessas saídas eu engravidaria. Ficaria calada até o quinto mês e quando revelasse meu estado começaria a reclamar falta de condições para cuidar da criança. Então, Austregésilo me ofereceria apoio financeiro e sua casa para que eu ficasse até a criança nascer.
Igor havia acabado de se formar, era órfão e completou os estudos com ajuda governamental. Só restaria a ele aceitar a ajuda do velho. Após o parto, eu abandonaria casa e criança e pegaria a significativa importância que ele havia me prometido. Os dois se casariam na Espanha e adotariam a criança.
Só que, como eu disse, eles não sabiam que eu não posso ter filhos. Um mês se passou, dois, e Austregésilo começou a me cobrar a criança. Não tardou para que ele colocasse um detetive atrás de mim e descobrisse tudo. Foi aí que a sorte arreganhou os dentes pra mim.
Em uma noite, daquela mesma semana, saí para comer em uma birosca perto do meu apê. E quem eu vejo entrando em uma casinha muito suspeita? Sim, ele mesmo. Não demorou muito para que eu fizesse contato com alguém daquela casa e uns drinks depois fiquei sabendo de tudo que se passava lá.
Austregésilo mantinha naquele lugar uma espécie de santuário para Alexandre Frota. Bonecos de cera importados da Inglaterra, roupas do ator, gravações, fotos, entre outras coisas compunham o local. Mas tudo devia ser mantido no mais absoluto sigilo, por questões comerciais. O velho fechava muitos contratos importantes, naquela época, e a descoberta de seu pequeno hobbie poderia arruinar alguns deles.
Descobri também que ele enganara um ingênuo mendigo que rondava o local, dando a ele um saquinho cheio de Viagra dizendo se tratar de 'pílulas para Smurfização'. O homem foi encontrado dias depois totalmente duro da cabeça aos pés. E ele mantinha esse homem como estátua, vestindo roupas que Frota usou em um de seus últimos filmes, no hall de entrada do santuário.
Após conseguir algumas provas fui à mansão disposta a fechar um acordo. Ele esquecia a minha pequena mentira e eu esquecia o seu pequeno museu e o crime cometido. Negócio fechado com a condição de que eu nunca mais aparecesse. E ainda ganhei uma boa quantia pra calar o bico.
E era esse homem que queria me ver a noite. Após almoçar e cumprir alguns compromissos que tinha a tarde, quase me esqueci de nosso encontro. E teria esquecido se não fosse um embrulho que chegou para mim. Dentro dele havia uma Fantasia Celebration de chacrete e um bilhete dizendo que ele havia esquecido de avisar que era uma festa a fantasia.
Parecia piada, mas resolvi aceitar. Quando terminei de me vestir e percebi que os sapatos estavam apertados, quase tive certeza de que se tratava de uma piada. Ao chegar a festa minhas suspeitas se confirmaram. Eu era a única fantasiada. Concluí que Austregésilo já estava ficando gagá e clichê.
Finalmente nos encontramos, ele riu e subimos até o escritório. Conversamos amenidades até ele tocar naquele assunto. Me disse que estavam escrevendo uma biografia sobre sua vida e era bom que eu não esquecesse o nosso pacto. Alceu, o biógrafo, estava na festa e procurava um grande furo para alavancar as vendas.
Pedi mais dinheiro para ficar calada, ao que ele recusou. Discutimos por um tempo até que um silêncio pairou no ar. Austregésilo me expulsou de seu escritório e também de sua casa. Eu precisava continuar naquela festa pra saber qual era a do biógrafo. Quem sabe se ele pagasse... Desci para o aposento dos empregados (sem que me vissem, claro) e consegui um uniforme com Fifi, a camareira.
Fifi não morria de amores pelo patrão, pois o achava muito parecido com José Lewgoy e isso a assustava um bocado. Ficamos muito amigas na época em que frequentei a casa. Vesti o uniforme, tirei a maquiagem e facilmente me misturei aos empregados.
Não foi difícil descobrir quem era Alceu, o biógrafo. Escutando um pouco daqui, um pouco dali, descobri que ele era o homem que discutia modos de preparar joelho de porco com outro convidado. Tentei me manter perto durante toda a noite. E teria conseguido se não fosse Igor, o podólogo. Ele me arrastou até o jardim e queria que discutíssemos nossa rápida relação ali mesmo, seis anos depois.
Eu sempre gostei dele e não foi difícil começar a falar tudo o que aconteceu. Falei muito, incluindo o fatídico caso de Viagra. Ouvimos passos e percebemos que havia outra presença no jardim. Não pudemos ver quem era, mas Igor, o podólogo, saiu correndo atrás. Eu aproveitei para procurar Alceu, o biógrafo.
Não o vi mais durante todo o resto da festa. Já ia pegar minhas coisas para ir embora, quando noticiaram que Austregésilo tinha ido comer capim pela raiz. No fundo eu achei merecido, mas na hora fiz uma cara de pesar.
Peguei de volta minha Fantasia Celebration e fiquei na sala com os outros. Jogamos uma partida de Banco Imobiliário enquanto o detetive que Cabelo, o mordomo, chamou não chegava. Após colocar a terceira casa da Av. Rebouças, Igor, o podólogo, me perguntou, sem que os outros ouvissem:
- Austregésilo foi para o céu?
Olhei para meus companheiros de jogo. Todos com um olhar competitivo e semblante de algo a esconder. Balancei a cabeça e respondi:
- Eu duvido muito.

16 comentários:

Renata (fã do Xico Sá) disse...

Descobri!!! Foi o Frota com a ajuda do Márcio Garcia fantasiado de podólogo.

sheila_makoto disse...

hummm...
tb não foi vc, donaa....chacrete celebration..
uahuahuahuahuahauh
magina, vc se abriu como uma mala velha, contou tooodos so seu podres e suas mutretas com o velho....
mas isso não quer dizer que vc não queria ferrar ele néh...
uhhhhmmmmm....
suspeita..

Fal disse...

Deus, amei isso!!! Agora eu tou com vergonha do meu.

André, um Jerico disse...

Bom amigos... O Jerico tá de cara nova e alma renovada. Seu blog está linkado lá no nosso pasto. Pra os amigos antigos... Beijos... Para os novos... bão Tb!
Venham visitar nossa roça, que como já diria a Lu do Uh Baby, é uma bela joça.
André, um Jerico: http://www.ideiadejerico.blogspot.com
Inté

Mestre Campestre disse...

Excelente!

Por enquanto, creio que a senhorita Margarida não é a responsável.

Acredito que vou manter a mesma suspeita do dia anterior. Mas antes disso preciso perguntar: Margarida, quem tirou a carta de saída livre da prisão? Isso pode responder muitas perguntas no futuro.

Monique disse...

Genial, dona Margarida!

Aí, só eu tenho medo do Don estar acompanhando essa história?

Ha! E por enquanto o mais suspeito continua sendo o mordomo! Eu disse que foi o Cabelo! Aposto duas jujubas verdes que foi ele!

Calvante disse...

Margarida hein!?

Bem que a Carminha me disse que tinha uma empregada nova na festa...

Margarida W. disse...

Mestre Campestre, foi o Mário.

Lady Sith disse...

Genial esse plano do Austregésilo para laçar Igor, o podólogo. Era tão simples. Tinha tudo para dar certo.

Fiquei um tempão imaginando o José Lewgoy usando as botas brancas do Frota (acho que não conseguirei dormir à noite).

Sérgio Vinícius disse...

É, Fal, eu também estou.

Muito, muito bom o texto.

Mahaaka - Aum Budhaia Namarrá disse...

Aposto que o biógrafo matou o velho pra continuar escrevendo como ele morreu! e ainda aposto que esse blog é dele!!!!!

http://www.escarniando.blogspot.com

Filli disse...

Não resisti. Tinha que deixar minha punhalada aqui tb. Só espero não virar suspeito agora.
Esse blog tá massa. Especialmente o começo desse post que está genial.
Já está nos meus favoritos.
É isso aí, galera.

Lola disse...

Perfeito!

Quando eu crescer quero escrever bem assim!

Agustinho disse...

Muito bom esse texto, adorei a parte do Frota e dos convidados jogando Banco Imobiliário.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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