terça-feira, 4 de setembro de 2007

Irmãos Grosso

Lacerad: Boa noite. Nós somos os irmãos Grosso. Eu sou Lacerad Grosso.

Dan: E eu sou Dan Grosso. Sim, é um nome patético, eu sei. Mas acredite, nunca fizeram piada com esse nome na escola. Acho que o fato de ter um irmão gêmeo grudado em mim pela nádega esquerda sempre foi uma fonte mais interessante de piadas.

Lacerad: Nossa condição biológica é delicada.

Dan: Na verdade ela é delicada somente no sentido figurado. Fisicamente, nós estamos bem presos.

Lacerad: Pessoas siamesas, pra quem não sabe, não são como gatos de corpo branco e cabeça preta. Pessoas siamesas são grudadas. Todo dia. Até que a sorte os separe.

Dan: Sorte que nunca veio.

Lacerad: Da defecação até a procrastinação. Da urinagem até a modelagem. Na infância é péssimo, não dá pra brincar de pega-pega. Mas depois piora...

Dan: Eu nunca gostei de brincar de esconde-esconde. Todo mundo encontrava a gente. Eu até conseguia me esconder no armário, mas o Lacerad sempre ficava de fora. Aliás, falando em armário...

Lacerad: ...piora quando você descobre suas preferências sexuais alternativas. Ok, isso não cabe na discussão de hoje.

Dan: Afinal, vocês não estão aqui para saber sobre a nossa triste infância. Você querem saber quem usou aquele velho filha da puta como porta facas, não é mesmo? Espero que na autópsia descubram que a meia vivarina que ele usava não foi capaz de protegê-lo da faca Ginsu. Mas para isso, precisamos falar mais um pouco da nossa condição física.

Lacerad: Na verdade, gostaríamos de reclamar daquele filme naipe sessão da tarde, dos gêmeos siameses. Aquilo é uma banalização piro-sincrética dos valores folclóricos indígenas. Ou como dizia Kincaid Spencer, uma puta falta de respeito. Aliás, nem assistimos essa merda. Aliás nem vamos ao cinema porque sempre rola a piada da meia-entrada com a gente. Como dizia Kincaid Spencer, uma puta falta de respeito.

Dan: Apesar das diferentes preferências sexuais, que meu irmão prefere chamar de "preferências orificiais", nós sempre trabalhamos bem em equipe. Primeiro tentamos fazer dupla de badminton, depois de tênis de mesa (a gente não chama de ping pong pois achamos um nome, digamos, pouco olímpico). As duas tentativas fracassaram. Especialmente a do tênis de mesa. Disputamos um campeonato com dois chineses siameses com polidactilia. Eles jogavam mais rápido do que o Forrest Gump depois de usar crack.

Lacerad: Também jogamos pebolim humano (sim, isso existe) e não nos saímos mal (atuávamos na zaga, desempenho até melhor do que a saudosa dupla Gralak & Elias). Até que um dia realizamos (realizamos não, percebemos. Realizar é verbo de candidata à miss) que a nossa verdadeira vocação estava na mordomia. Não aquela banda de bichonas espanholas de cabelos esvoaçados por leques de purpurina. Falo da profissão mais inglesa do Peloponeso Setentrional: a arte de ser mordomo. Mas não a de mordomos solitários como Sérgio Mamberti, o eterno criado da Odette Roitmann, ou Alfred, o solicitíssimo puxa-saco de Bruce Wayne. Apostamos num novo conceito, do mordomo de quatro braços. O conceito do um lava e o outro enxuga. Um abre a porta e o outro pega o casaco. Um faz apologia e o outro dichava. E nos matriculamos no curso de mordomos do Sesc.

Dan: Nós tínhamos essa idéia de sermos um novo conceito em mordomos e a abraçamos com os quatro braços. Estávamos realmente muito empolgados. Mas o que o meu irmão Lacerad não esperava era que, mais uma vez, nós iríamos nos tornar motivo de piada. E não eram piadas sobre o sobre o fato de nós termos a mesma maldição dos irmão Corso (tente imaginar como é desagradável sentir tudo o que o seu irmão sente, especialmente quando ele é um gay extremamente ativo e você é um heterossexual convicto). O problema era que, apesar de nós sermos os primeiros da turma, nós nunca havíamos sido culpados de nada. Dan e Lacerad, os mordomos inocentes, eram como eles nos chamavam.

Lacerad: Muita humilhação, cara, sem idéia....

Dan: Não foi fácil. Desistimos do curso, deixamos nosso sonho para depois. Tentamos comprar uma carteira falsa da Ordem dos Mordomos do Brasil, mas só conseguimos uma carteirinha da OAB. Foi quando o meu irmão teve uma idéia genial: E se nós matássemos alguém? Alguém rico e que more em uma mansão? Isso nos daria o respeito que tanto precisávamos. Só assim poderíamos voltar de cabeça erguida para o nosso curso de mordomos no Sesc Itaquera.

Lacerad: Foi aí que começamos a prospectar potenciais alvos. E foi nessa que abriu uma vaga para mordomos estagiários na casa do ilustríssimo Sr. Austregésilo Castello Branco. Tínhamos certeza que as tendências bizarras do ancião não resistiriam ao nosso freak show gratuito e cotidiano. Dito e feito, fomos contratados. E então se seguiram dois felizes anos nos quais tentávamos diária e sistematicamente matar o maguína (sic), sem resultados convincentes. Cianureto no café, alçapões artesanais embaixo de tapetes, superaquecimento da sauna, freio do carro sabotado. Nada funcionava.

Dan: Até que o velho se encheu e mandou a gente embora.

Lacerad: Mas o tempo passou e o bom Austré mostrou que não guarda rancor. Ficamos muito honrados de termos recebido o convite para esta festa e com isto a última e imperdível oportunidade de matá-lo.

Dan: E foi exatamente isso que a gente fez.

12 comentários:

Luiza Braz disse...

Ohhhhhh

:O

carminha disse...

gêmeos? siameses?

hummmmmm, ai....

e estavam esse tempo todo escondidos na casa? tão perto de mim...

hummmmmmmmm...

a lascívia se apodera de mim... preciso encontrá-los! preciso seviciá-los, amá-los...

lacerad grosso, hoje você vai aprender a gostar de uma mulher!!!

Raquel disse...

\o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/ \o/

Sen-Sa-Cio-Nal! Só isso...

Junior disse...

Eu acho que é mentira, só estão assumindo o crime pra poder voltar ao Sesc Itaquera

Andréa Z. disse...

Uma palavra: genial!

muta disse...

caraca, todo mundo pegando no pé do sesc itaquera!!!

é do lado da minha casa, hahahaha...

vou investigar algo sobre esses dois freaks aí! ou seria um? xiiii.

Anônimo disse...

Fala sério q eles confessaram assim?
E o Neneco não vai ter q descobrir nada? Usar os seus dotes detetivescos?
E o cara da piada do pavê???

Taci disse...

Concordo com o junior..eles só querem voltar pro curso e virarem heróis!! =P

Muito bom!!

sheila_makoto disse...

:O

ohhHHHhhhhHHhhHHHhhhhhhh

será que acabouuu????

uahuahuahuhauahuahuahu

Monique disse...

Hahahahahahaha! Fantástico! Mas, rapazes, sinto decepcioná-los...

Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas Dan, você está errado. "E foi exatamente isso que a gente fez." O cara levou uma facada. Por mais que os dois tenham planejado, um desferiu o golpe. Ou seja, um de vocês é o culpado. E o outro é somente cúmplice.

Evidentemente vocês colocarão em colapso a justiça brasileira, uma vez que as penas serão diferentes e, err, não sei bem como vocês poderão ser punidos separadamente. Então, há três opções:
1. Vocês voltarão para o Sesc com louvor, por terem matado o cara;
2. Vocês voltarão para o Sesc com louvor, por terem colocado em colapso a justiça brasileira;
3. Vocês não poderão jamais mostrar as caras no Sesc novamente, uma vez que a justiça brasileira nunca vai se dar ao trabalho de pensar no caso de como processar vocês dois separadamente.

Eu esperei ansiosamente pelo texto de vocês. Não me arrependi nem um pouco. *Fã-clube do Curto&Grosso*

Quinho disse...

Adorei o comentário da Monique. Só tenho uma ressalva. Eu e Olívia também fazemos parte do Curto&Grosso e nem por isso temos nossas bundas grudadas no que quer que seja.

Lady Sith disse...

Sensacional esse texto. "Eles jogavam mais rápido do que o Forrest Gump depois de usar crack" foi a melhor comparação que eu já li na vida.