terça-feira, 7 de agosto de 2007

Alceu, o Biógrafo

Falar o que aconteceu? Tudo bem, pra mim é fácil. Vivo disso. Falar o que aconteceu, está bem. Falar o que acontecerá? Não, isso não me pedem. Tudo bem, não sou vidente. Mas ainda pedem pra eu falar o que aconteceu de graça! Ora, isso não é mais meu trabalho.

Pois bem, primeiro vou me apresentar para evitar confusões com algum desses criminosos que tiveram a pachorra de assassinar meu grande amigo Austregésilo. Me chamo Alceu, Alceu Silvino Garcia, ao seu dispor. Percebeu o que eu fiz nessa frase? Chama trocadilho. É uma coisa que nós, escritores, fazemos... (risos) É para poucos...

Enfim, sempre escrevi muito. Tenho dois romances, nenhum publicado. Me recuso a me rebaixar a esse mercado editorial que só quer explorar. Esse é o papel de nós, artistas... (joga o cachecol para trás) Mas enfim, se vocês quiserem ler, ou, sei lá, tiverem uma editora e quiserem publicar, tô aí.

Estudei com Austregésilo por algum tempo, na juventude, antes da minha família perder tudo. Viventes da cultura passam por dificuldades antes do reconhecimento da genialidade aparecer. (ouvem-se algumas risadas no fundo, Alceu responde mostrando o dedo do meio e volta ao depoimento).

Depois desses contatos, nos encontramos poucas vezes até que, três meses atrás, recebi um telefonema de Austregésilo. Queria saber se sou escritor, mesmo. Lógico que respondi que sim. Ele disse “Ótimo, venha ao meu escritório hoje”. (as aspas foram feitas com os dedos do biógrafo) Fui, e ele me disse que, por causa de sua longa carreira, queria ser biografado. Pagaria bem, o meu trabalho seria todo publicado e financiado pela empresa. Sou um artista independente, mas o dinheiro me viria a calhar. Seria interessante me afastar da minha ficção lúdica e, entretanto, profunda, para me aventurar na exploração da vida de um reles mortal.

(nisso, ao fundo, uma voz feminina rouca grita “Alceu, já foi me buscar o joelho de porco? O hóme do açougue não vai segurar por muito tempo aquele preço, ô!”. Alceu grita “Já vai, tia” e continua a falar para a câmera.)

Acertamos os detalhes e, então, passei esses meses revirando fatos e mais fatos da vida de Austregésilo. Enquanto analisava de perto a sua extensa coleção de revistas pornográficas, vi cair um envelope assinalado como confidencial. Abri o envelope e vi, dentro dele, uma chave e um endereço. Como tinha que sair para comprar lenços de papel, para manter a higiente durante a pesquisa do dia, resolvi conferir o que aquela chave escondia.

Demorei a achar o endereço, pois nós, artistas, costumamos ter o senso de direção semelhante ao de um passarinho bêbado. Era um galpão velho, trancado a cadeado. A chave encaixou perfeitamente, e consegui entrar. Lá dentro, um freezer. Abri o freezer e não poderia ficar mais chocado: estavam lá uma perna humana e um disco do Roberto Carlos. O disco estava autografado, e com um recado: “Obrigado por guardar meu segredo. Se soubessem dos meus seis dedos, jamais seria considerado rei. Agradeço profundamente, mas peço com todas minhas forças, guarde sigilo! PS: Valeu também pela perna de pau. Um charme! Adoro me vestir de pirata mesmo, unimos o útil ao agradável.”

Era uma bomba! Não poderia deixar passar um fato de tamanha importância fora da biografia. No dia da festa organizada para Austregésilo, fui conversar com ele. Ele me proibiu de publicar qualquer coisa relacionada à sua relação bizarra com Roberto Carlos. Brigamos muito, e resolvi continuar meu trabalho longe dele. E ainda gritei “Biografia de vivo não vende nada se não tiver escândalo!”. Ele continuou gritando asneiras, mas dei meia volta e saí. Pouco tempo depois, ouvi barulhos de tiro. Estou tão aflito com a morte de Austregésilo quanto qualquer outra pessoa, e sinto muito por sua família. Mas nós, artistas, colocamos o trabalho em primeiro lugar!

Por isso estou viajando. Esse é um trabalho voltado ao mercado editorial, por mais que eu o evite. Tenho todo o direito de vender essa biografia para uma editora, e ninguém vai me proibir! Estou concluindo o livro, enquanto moro com minha tia e ajudo ela a cozinhar pra fora. Depois, vou ter o meu reconhecimento como escritor.

Aliás, agora vou declamar um poema que fiz em homenagem à minha tia: (ergue uma mão para o ar, faz cara de sentimento e declama, sentimental) “Joelho de porco, oh, pobre porquinho manco...”

(Ele continua a declamar por alguns minutos, até que a sua tia lhe manda buscar o joelho de porco debaixo de tapas.)

10 comentários:

D�a disse...

Mas bah, isso aqui t� cada dia melhor! :) De onde vieram e para onde foram os tiros?? hehehe

Muta disse...

medo, mto medo desse biógrafo!

O.o'

camila disse...

Pouco tempo depois, ouvi barulhos de tiro.

O que foi isso?? Meu Deeeus!!!

hehehe

mto bom meeesmo!!!!

Monique disse...

Eu explico o tiro! A história se passa no Rio de Janeiro. Assim, fica fácil ouvir tiros em qualquer lugar. =P

Gente, os dois caras que estudaram com o Austregésilo se tornaram escritores fracassados, é isso mesmo?!

Deve ter algo aí... Tem que ter.

Mymi disse...

Foi macumba.
Os tiros eram pra matar a galinha. x)

Albion disse...

Cara, quanta gente esquisita!

O que teremos depois? Um professor de dança de salão? Um crítico de cinema? Um adestrador de suricates? Um torcedor da Portuguesa?

Só tenho uma pergunta: não está faltando um repórter sensacionalista?

Mestre Campestre disse...

Good!

Os tiros não incomodam, o que incomoda é que ninguém viu o número.

E apesar de tudo, eu acho que não foi o Sr. Alceu. Ainda mantenho minha primeira suspeita.

taci disse...

Primeiro um faz o caixão do cara, depois o outro encontra uma perna..e agora tiros? Que tiros?!!

sheila_makoto disse...

foi eleeeeeeee!!!!!!

o bendito velho num tinha morrido com uma facada?
que negócio é esse de tirooos?!?!

Lady Sith disse...

Imaginei o Alceu igual ao crítico de gastronomia do Ratatouille (ou o filme do ratinho porque eu não sei bem como se escreve esse troço).

Esse Austregésilo, hein? O cara tinha um santuário secreto para o Frota e guardava a perna do Roberto Carlos na geladeira. Só falta esconder o Elvis no sótão.